Quem dera ser um peixe...

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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

AS DIFERENTES FACES DA VIOLÊNCIA NA ESCOLA

A violência é um fenômeno atual que tem se apresentado frequentemente no ambiente educacional se materializando em diversas formas desde a agressões verbais até graves agressões físicas praticadas por alunos contra colegas e professores. Além disso, temos na escola, um tipo de violência mais sutil: a violência simbólica que leva ao fracasso escolar por meio de um ensino e de um currículo pouco interessante e desestimulante sem significado para a vida dos alunos. Os professores também podem sofrer essa violência simbólica quando se deparam com alunos desinteressados e indiferentes a sua ação pedagógica.
A escola é um espaço de conflito, em que há interesses contraditórios e não um campo neutro e homogêneo em que todos pensam da mesma forma. Concepções, crenças, valores, convicções trazidas da vivência familiar, da vivência com outros grupos sociais, do entorno, ou seja, a subjetividade, o capital cultural de cada um interfere no funcionamento da escola. Dessa forma presenciamos fenômenos na escola nem sempre positivos tais como o Bulling, que levam ao sofrimento psicológico por meio de constrangimentos onde o aluno é humilhado por apelidos, intimidações e piadinhas, o cyber bulling em que a vítima vira chacota e é ridicularizada em plena rede virtual, podendo até cometer suicídio, trotes universitários que acabam em homicídios cruéis, discriminação étnico-racial, de gênero, de religião são alguns exemplos de violência que ocorrem no interior da escola.
Gomes e Pereira(2009) em seu artigo “A formação do professor em face das violências das/nas escolas” discute a violência escolar, tanto a violência física como a simbólica sofrida por alunos/professores e coloca como ponto chave para superação desse problema “criar uma cultura de paz nas escolas” enfatizando a preparação inicial e continuada dos professores como a ponta desse iceberg e um caminho para sanar essa dificuldade.
Para os autores citados o professor sendo uma autoridade na sala de aula deve estar capacitado para agir perante violências. Os autores, porém colocam que muitas vezes esses professores estão despreparados quer pelo tempo de carreira quer pelas lacunas na sua formação inicial. Ainda de acordo com os autores países como Espanha, Bélgica, Grécia e até na América Latina esses professores são alvos preferencial de programas de formação continuada para superar a violência nas escolas, porém há um distanciamento muito grande entre pesquisa e prática, ou seja, o que oferece a pesquisa sobre violências nas escolas e o que chega aos professores por meio da formação inicial ou continuada.
Parece-nos que, realmente, não deve ser nada fácil lidar com alunos em que a indisciplina e a violência é evidente, estudos de Bonfim (2007) nos esclarecem sobre a relação professor/aluno. Segundo a autora a relação professor-aluno é uma relação caracterizada pela complementaridade que varia de acordo com o contexto social em que a instituição educativa está inserida e com o modelo educativo adotado. Assim se o modelo educativo for pautado por princípios rígidos e tradicionais, o professor é colocado no centro da situação educativa, com autoridade para classificar, julgar, avaliar e sancionar.
Bonfim (2007) citando Bourdieu e Passeron diz que essa autoridade do professor advém do privilégio que lhe é concedido de ser representante da cultura letrada, e essa posição privilegiada é reconhecida pelos próprios alunos. Para a autora, nessa relação complementar, porém desigual o aluno é situado numa hierarquia de subordinação e submissão.
A referida autora baseada em estudos de Gilly (1980) e Postic (2001) relata que o professor constrói as suas representações sobre o aluno baseado num modelo ideal do bom aluno deixando em segundo plano o aluno concreto provido de sentimentos e gostos. Já o aluno dá mais prioridade às qualidades relacionais do professor tais como compreensão, solidariedade e simpatia.
Daí essa forma divergente de perceber a relação pode gerar insatisfações levando, segundo a autora, a categorização de um pelo outro, que pode ter efeitos emocionais intensos. Nesse contexto professor e aluno elaboram representações um do outro que tendem a funcionar como estereótipos qualificadores ou desqualificadores de ambos.
A autora conclui que professor e aluno podem estabelecer uma relação harmoniosa, porém consciente que ambos são diferentes e que exercem uma ação sobre o outro descobrindo o significado de uma relação educativa recíproca por meio do diálogo.
A importância de se ter nas licenciaturas uma maior compreensão da juventude, a forte contribuição das teorias, relacionando-se logicamente com a prática, a formação continuada constante dos professores pode ser uma das formas para que os mesmos coíbam a violência escolar e contribuam assim para a transformação do status quo. Além disso, ninguém negará que políticas públicas voltadas para o fortalecimento da profissão docente é urgente e se faz necessária uma vez que a formação de professores é uma peça-chave na inclusão dos jovens das camadas mais populares da sociedade




REFERENCIAS


BONFIM, Maria Núbia Barbosa. Na contramão do currículo: invertendo-se os caminhos de análise. Universidade de Coimbra. (Doutorado), 2007.

GOMES, Candido Alberto; PEREIRA, Marlene Monteiro A formação do professor em face das violências das/nas escolas. Cad. Pesquisa, Abr 2009, vol.39, no.136, p.201-224.

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